2018.05.31 - Harar

Querido Sal,

Saí um dia de casa, para a biblioteca.
Disse "bom dia" ao segurança quando cheguei. Disse "boa tarde" ao segurança quando parti.
Almocei uma sandes num jardim, a ouvir os patos. Jantei qualquer coisa em casa, a escutar a rua.
Passei o dia a trabalhar palavras.
Deitei-me só tendo usado quatro delas.
Nesse dia, eu não fui eu. E o próprio mundo duvidou da minha realidade.
Não seremos personagens de nós mesmos?

2018.05.28 - Perto de um Cipreste

Querido Rosa,

O vazio era para dar os muitos textos que restam.
Não é com o trabalho que faço alimentar o vazio.
É no uber para o emprego.
No almoço na secretária.
No quarto de hotel.
No desabitar a rua.
Não tocas em ti, mesmo no fim do dia, na dúvida de ser real?

2018.05.25 - Ali no fundo

Querido Sal,

Pouco sei sobre trabalho.
Tem a ver com dar.
Dar.
Produto. Tempo. Palavra. Solicitude. Prazer.
Para receber.
Porque nos esgotamos a alimentar esse vazio?

2018.05.24 - Trieste

Querido Rosa,

Passei esse dia a trabalhar. Passei esses dias últimos a trabalhar.
Essa doença ferve de símbolos. Os bichos no tecto desse quarto jamais devem existir.
Pousaram uma bíblia na mesa do meu lado. Fui para abrir. Afinal não era o que pensava.
Queria suar febril, e ter de vez saudade da "Vie Dangereuse".
Ao trabalho, saber para quê?

2018.05.21 - Num quarto particular

Querido Sal,

És tu mesmo o arquitecto desse quarto de hotel. O espaço que propões é sujar isso. Cabe-te na linha de corte, tingir a inocuidade com o teu corpo.
Quanto aos sonhos, há semanas que os vou perdendo.
Não importa, nos dias tenho contado vértices oníricos.
Estou adoentado.
A tua doença não te enche a vida de símbolos?

2018.05.18 - Turim

Querido Rosa,

Chego num quarto e falta presença. Pessoa. Não tem um cheiro. Nada é mau. Nada é bom.
O meu trabalho é assim.
Os teclados vazios sem letras, assim como o lençol sem cotão. Uma vida sem mais um dia.
Agora leio sobre pontes que dão escala a nuvens.
Pertenço-me a mim, por este instante.
Hoje irás dormir e sonhar com as coisas simples?

2018.05.16 - Lisboa

Querido Sal,

A utilidade do que não é útil é o prazer de ser inútil.
Fui correr, e é quando corro que olho para as nuvens. A questão prende-se com o modo de olhar. Ver pode ser um borrão.
Há que falar de casas.
Experimenta vir de leste, teres a ponte e o sol sumido a oeste. Perpetua uma luz. Tudo é maior. Agora olha como as nuvens têm escala. Pairam.
Há-lhes algo de incomportável.
Que pertença sentes nesse instante?

2018.05.14 - Milão

Querido Rosa,

Caminhos vicinais somente a lado de Sá Carneiro.
Vi hoje uma nuvem, não tinha visto ainda desde que daí fui sair. Ou o céu tem andado esquecido ou eu tenho andado de olhos prendidos no chão.
Fez-me pensar nessa coisa estranha que tens de conversa. As tuas certas frases pairando como nuvens, e tu mesmo esquecido delas, a elevar-te, sim, para depois nas alturas estares focado nas pedras do chão.
Quando foi a última vez, Rosa, que viste uma nuvem?

2018.05.13 – Lisboa

Querido Sal,

Pensei a sério nisto, que é o mesmo de não ter pensado em nada. Andei por aí.
Noutro dia, depois do café, disse-te que ia até ao castelo. Nada como elevar a mente por essa calçada acima. Meti-me lá pelas ameias a ver a cidade, a escutar as sirenes do S. José. E havia alguma coisa de urgente: Tu tens toda a razão, embora só te diga por escrito.
Falei-te noutros que saíram daqui, as cidades da Europa roubam-me pessoas maiores que quarteirões. Se visses a cidade aqui de cima, vias como a mesma está vazia. Embora jure ter-te pressentido, metido nos assuntos de um beco, como quando proferiste amor por aquele triangulozinho de azulejo partido, aqui para os lados da Paz.
Não tenho grande fé em blogues, como outras vezes te disse. Menos ainda num que vão propósito contempla.
Por isso o fiz.
Nem que seja para que, nesses caminhos vicinais, abrandes o passo e te lembres de uma resposta que me deves.
Acabamos isto com uma pergunta?