2018.08.31 - Ribeira das Naus

Querido Sal,

Lembro-me da senhora do bengaleiro a perguntar-nos se era um casaco azul.
E de eu lhe responder que não, que era um Jack London e um Blaise Cendrars.

Gostava tanto de só dizer frases destas, todos os dias.

2018.08.29 - Caiena

Querido Rosa,

Sempre vou guardando essa imagem:
Vais afastando-te na névoa da manhã, com Jack London na mão. Fazias cambalear.
Antes duas horas tivemos da madrugada, a falar evangelhos ao apocalipse.
O nascer de sol veio-nos fechar essa oratória de Bíblia. Roubou nossa voz como roubou aos poucos casais que ali foram começando a passar.
Ouvi as gaivotas. Acenei a despedida com Rum de Cendrars (seria?).
Havíamos detido nas mãos as únicas palavras do mundo.

2018.08.27 - Lisboa

Querido Sal,

Devo à arquitectura a sensibilidade face ao espírito do espaço. Talvez por isso veja pela cidade resquícios de amor antigo.
Por vezes procuro repetir certo caminho por Lisboa, na tentativa de resgatar um pouco do que sentira quando o partilhara.
É um parco som, esse meu passo na calçada.

2018.08.24 - Roma

Querido Rosa,

Quando sou de ter amor por alguém (amor de paixão, corpo, desejo), sou de falar de Futuro. Aliança, casa, casamento, filho, neto. Sem nunca ser capaz de levar esse Futuro para Presente.
Não vou chegando nunca a esse lado.
Mas quando sou de ter novo amor por outrem, sou sempre de novo um falar de Futuro.

2018.08.21 - Clareira

Querido Sal,

Usamos muitas palavras para falar de caminhos, sem nunca chegarmos a lado nenhum.

2018.08.19 - Nessa Costa

Querido Rosa,

Devias levar a mim essas praias que ferem, sem exigir passo em troca.
Soa ao deus de Eliot:
I do not know much about gods
Creio ver nessa pedra o merecer de um evangelho.

2018.08.16 - Rogil

Querido Sal,

Porque resistem os caminhos da vida à esterilidade com que os tentamos dotar?
As minhas praias preferidas são de rochas negras. Caminho nelas sobre as pedras. Ferindo os pés. O caminho dá-me algo.
Mas se olho para trás, não sobra qualquer pegada.

2018.08.14 - Holzwege

Querido Rosa,

O mote deste desvio foi suprir o nome.
Se caminho na floresta, não pergunto, nem desejo, o seu nome.
Falaste uma vez na mulher que ia pela montanha e se perdia entre o bosque. Que tinha medo. Mas que queria ter medo.
Ali era somente um caminho sem nome, e não sabia sequer onde ia dar.
Hoje sou apenas inveja da ambição nessa mulher.

2018.08.10 - Estrada no Inverno

Querido Sal,

Se caíres sobre a neve, abrirás um caminho?

2018.08.08 - Davos

Querido Rosa,

Não havia nunca pensado no salgar.
Branquidão é-me montanhas cobertas de neve.
A neve existe sempre. Mesmo se finge ir, perpetua por nascentes e erva crescente.
O sal sobre a neve deixa fluir o tráfego.
O branco tem demasiado espaço.

2018.08.06 - Nova Mambone

Querido Sal,

Vejo esse clarão inicial da luz no sótão, como se salgasses o momento. As caixas e arrumos sem mais conseguirem brotar qualquer flor na superfície.
Os teus irmãos roubados do medo e de inconsciente estéril. Quantas noites devem ter sonhado em branco.
Felizmente, se me salgam a memória, surge-me sempre um flamingo rosado, posando como um pelourinho.

2018.08.02 - Regressando

Querido Rosa,

Temos um medo do que é branco.
Na casa de uns meus avós havia um sótão para onde subíamos na juventude. Era escuro como ascender em vida deve ser.
Subia com os irmãos. Agarrávamos mãos, uns e outros. O sótão tão escuro de noite. Contávamos histórias para assustar no sótão. Víamos contorno de caixas e arrumos. Coisas que não eram mais precisas. Enterradas sem lhe ser preciso a terra.
Havia muito medo.
Medo em desaparecer.
Eu tinha muito medo. Era muito o primeiro a desistir e acender a luz.
Trocava o medo de desaparecer pelo medo de não existir.

2018.07.30 - Noite Branca

Querido Sal,

Não sei bem como estou.
Preciso de um espaço em branco.
Para que me escrevam um nome.
Ou então que preencham toda a minha capa.
Toda com todos os nomes.
Para que não haja sequer espaço para o meu.

2018.07.25 - Londres

Querido Rosa,

Fazemos regresso no passado.
Assim a capa não tem mais o nome de autor.
Pode ser para ficar espaço em branco.
O leitor lhe pode escrever:
Um nome.