Querido Sal,
Estive a correr.
Li sobre um grupo de corredores que fez uma ultramaratona durante 64 dias consecutivos.
Correram mais de 4.000 quilómetros.
Nesses 64 dias de esforço intenso, o volume do seu cérebro encolheu em 6%.
Tendo em conta a pura proporção, se quisermos apagar o nosso cérebro, deveríamos correr durante 1.066 dias, 14 horas e 24 minutos.
Daí se conclui:
Não devemos ter pressa.
2018.06.27 - Rota da Seda
Querido Rosa,
Essa posse da verdade estaria no colectivo. Não seria conseguida por nenhum indivíduo.
Não seria capaz nem um sozinho.
Não seria capaz de a saber sequer o seu autor.
Gostava de ver essa capa órfã de nome.
Todas as capas deviam perder os seus nomes.
2018.06.24 - Ordos
Querido Sal,
Sobre a rua. Não compreendo como se pode vaticinar esta não ter lugar na literatura. Remetê-la a um mero espaço de ligação.
Um dia hei de conseguir escrever um livro que conste somente de pessoas caminhando pela calçada.
Nenhuma terá qualquer destino.
A única justificação adviria do colectivo.
O meu nome não constaria na capa.
Sobre a rua. Não compreendo como se pode vaticinar esta não ter lugar na literatura. Remetê-la a um mero espaço de ligação.
Um dia hei de conseguir escrever um livro que conste somente de pessoas caminhando pela calçada.
Nenhuma terá qualquer destino.
A única justificação adviria do colectivo.
O meu nome não constaria na capa.
2018.06.21 - Kadath
Querido Rosa,
Perdoo esse tanto lirismo. Se deres perdão ao erro que te acuso.
Não deves zangar nem devassar.
Se algo te podes dever, então que seja somente abandono.
As maiores letras de um livro são o título.
As mais pequenas, o nome do seu autor.
2018.06.19 - De Ressaca
Querido Sal,
Devia zangar-me comigo.
Devia devassar, mutilar, violar tudo o que é meu.
Construir um romance com a derrocada do corpo.
Sobrando-me somente a mão direita, para lhe ser capaz de um ponto final.
Como tenho nojo deste texto.
Devia zangar-me comigo.
Devia devassar, mutilar, violar tudo o que é meu.
Construir um romance com a derrocada do corpo.
Sobrando-me somente a mão direita, para lhe ser capaz de um ponto final.
Como tenho nojo deste texto.
2018.06.17 - Bilheteira
Querido Rosa,
A verdade.
Não estaria tudo num perdido.
Se tivesse a verdade.
Não tínhamos mais sítio algum para onde ir.
2018.06.13 - Lisboa
Querido Sal,
Umas vezes quero imenso a verdade.
Uma voz de quem gosto disse-me que no fim nos fica a certeza da solidão.
Escrevi um texto.
As minhas palavras prometiam dispor-me a seu lado, nesse instante final.
Ambos incapazes da verdade.
Eu pela escrita.
A voz pela certeza.
Umas vezes quero imenso a verdade.
Uma voz de quem gosto disse-me que no fim nos fica a certeza da solidão.
Escrevi um texto.
As minhas palavras prometiam dispor-me a seu lado, nesse instante final.
Ambos incapazes da verdade.
Eu pela escrita.
A voz pela certeza.
2018.06.10 - Milão
Querido Rosa,
Não cabe para nós arcar o peso de toda a resposta.
Conheço, como também devendo tu conhecer, homens vários de religião.
Sua felicidade, o apaziguamento que posso lhes reconhecer, vem da certeza: Certas questões jamais serão respondidas.
Aceitar isso é dar espaço para paz, em lugar de dúvida.
(daí o texto não ter qualquer interrogação)
2018.06.06 - Em trabalho
Querido Sal,
Sobre árvores:
Tive de fazer um currículo.
Enchi uma folha A4 com o que sou. Quando o li, não soube quem era.
A consciência de ser. Arcamos com esse peso.
Eu sei que sou.
Não sei quem sou.
Não sei o que sou.
Haverá meio de me aproximar disto?
Sobre árvores:
Tive de fazer um currículo.
Enchi uma folha A4 com o que sou. Quando o li, não soube quem era.
A consciência de ser. Arcamos com esse peso.
Eu sei que sou.
Não sei quem sou.
Não sei o que sou.
Haverá meio de me aproximar disto?
2018.06.04 - Holzwege
Querido Rosa,
São-te pertença essas quatro palavras?
Posso fazer que me venham da voz uns milhares de palavras num dia, e acontecer que nem uma delas seja minha.
Nisso me vou lembrando duma história que talvez não tenha ouvido.
Sobre uma árvore. (sei sempre como aprecias as árvores)
Havia uma macieira e foram-lhe buscar maçãs. Em vez de maçãs, a árvore deu-lhes laranjas. Havia essa mesma macieira e foram-lhe buscar maçãs. Em vez de maçãs, a árvore deu-lhes pêras. Havia essa mesma macieira e foram-lhe buscar maçãs. Em vez de maçãs, a árvore deu-lhes pêssegos.
Havia essa mesma macieira. Até que alguém disse, que macieira?
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